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Cores, cheiros e temperos

Posted by Larissa Araújo on 20:46
E pensar que no início tudo o que eu sentia era medo. Medo do lugar, medo das pessoas, medo da religião, santa ignorância! Mas tudo bem, o meu desespero é compreensível, era medo do desconhecido. Antes de embarcar tudo que eu pensava era que se acontecesse alguma coisa, eu compraria uma burka para usar durante toda a semana da minha estadia naquele país africano.
Passado o susto inicial, me vi no aeroporto de Marrakech, lindo! Simples, pequeno e lindo, já ali o meu medo foi dando lugar ao encanto, mas não por completo, eu ainda não havia chegado no hostel. Depois de trocar nosso dinheiro e descolar um mapa no balcão de informações presenciamos a discussão dos taxistas, de quem seríamos passageiros? Depois de algum tempo um senhor simpático que mal falava inglês nos conduziu até a entrada da Medina.
No caminho até parecíamos bobos, tudo que víamos arregalávamos os olhos e exclamávamos a nossa surpresa. Até que descemos na cidade velha de Marrakech, ou melhor dizendo, na Medina. Lá fomos nós com os nossos mochilões andar em meio a tanta gente diferente que nos olhava com curiosidade, os estranhos éramos nós. Motocicletas, pessoas, animais, carnes, pães, lenços, burkas, hijabs, cabelos, um labirinto cheio de vida e luz. Quinze minutos foram suficientes para encontrarmos o albergue do amor, o nosso lar no Marrocos.
Tudo acertado e era hora de desbravar a cidade e toda a sua cultura que pulsava intensa em cada beco ou esquina da Medina. Nunca havia visto paisagem mais encantadora: luzes, pessoas, restaurantes, barracas, lojas, música, cores. Tudo misturado formando o mais belo quadro pendurado na parede do museu da minha memória. Era tão bonito ver a vida acontecer, homens tocando música típica e passando o chapéu, mulheres com seus trajes coloridos e bordados, cobertas e ainda assim bonitas, acompanhando seus maridos e segurando as mãos dos filhos. Os vendedores de suco a procura de turistas para saborear o mais puro suco de laranja, os macaquinhos amarrados a fazer de suas vidas a distração do turista e o ganha-pão do treinador, as cobras tontas que dançam ao som da flauta, as mais variadas sementes e grãos, o colorido dos souks. As crianças prontas a se aproximar e pedir alguma coisa, a realidade por trás da fantasia dos contos.
Todos falam francês, um charme a parte, mas também arriscam inglês, espanhol, português, fica a gosto do cliente, só não pode é perder o freguês por conta das barreiras linguísticas. Para atrair o cliente vale tudo, e se em algum lugar do mundo você pode aprender a arte o negócio, esse lugar é Marrakech, um intensivo de uma semana pechinchando com os locais e você está pronto para abrir seu próprio negócio! “It’s a very good price” diz o vendedor com sotaque bastante carregado. “How much you pay?’ É o que vem em seguida se você achou caro. “Good price for me and for you” e todos terminam felizes, você que comprou um artigo lindo, barato e diferente de tudo que você já tenha visto e ele que conseguiu vender mais uma peça daquela de cashmere que ele já está cansado de ver e vai poder alimentar os seus filhos em casa.
Mais adiante você decide provar uma amêndoa, um damasco, talvez uma castanha, e sai da barraca com gramas e gramas de grãos deliciosos para enganar a fome enquanto ela ainda não venceu o seu encantamento com o local. Tapeçaria, cerâmica, pinturas, texturas, tinturas, é possível decorar um apartamento inteiro com motivos marroquinos e ainda aproveitar o melhor da cosmética natural. Batom, perfumes, óleos, delineadores, tantas cores e aromas, âmbar, jasmim, sândalo, uma prova de resistência até para as menos vaidosas! Não há como não comprar, tem-se vontade de experimentar tudo e levar mais que tudo, se possível, por favor. Não há problema, se você quer mais, temos também, cremes hidratantes para o rosto e o corpo que servem também como demaquilantes, cremes contra certos tipos leves de doenças e até descongestionantes nasais, quem precisa de Vick? Ah, lembra-se daquele óleo famoso que faz o maior sucesso nas cabeleiras mais poderosas de hollywood? Segredo, com o dinheiro pago por um frasco dele lá fora, aqui é possível comprar uns tantos. Mas não espalha, tá? E o que dizer das jóias e bijuterias? Tantas pedras lapidadas, prata, ouro, anéis, pulseiras, pingentes, o paraíso das madames!
A fome aperta e os mais diversos temperos estão a sua espera, especiarias de todos os tipos e gostos para que ninguém reclame que a comida marroquina não tem gosto. Tagine e couscous são as minhas indicações: cores, cheiros e temperos, tudo combinado para dar o melhor sabor a sua refeição e com preço mais acessível, impossível, nem vou comentar. Até o pão é delicioso, assim mesmo pego com a mão, a mesma mão que recebe o dinheiro e dá o troco e faz mais sei lá o que, mas desencana, são uns anticorpos a mais que o seu corpo adquire. A água você compra engarrafada mesmo, só para garantir. Coca-cola pode ser encontrada em qualquer lugar, até no deserto, tudo bem, não exatamente no meio do Sahara, mas bem próximo, nas últimas cidades antes do infinito de areia há sempre inúmeras propagandas, cartazes em árabe anunciando que vendemos Coca-cola, a latinha? Coisa mais linda, toda escrita em árabe.
Mas e o roteiro cultural? Cadê o turismo? Calma, você vai se cansar de andar sob aquele sol no trajeto de um palácio a outro. O que não falta é história e cultura, a pobreza pode ser vista a olho nu, mas a riqueza cultural ultrapassa qualquer limite e todos tem orgulho do seu povo. A arquitetura é um caso a parte, talvez seja preciso um mês inteiro para perceber tudo que há ali em cada entalhe de madeira, ou mármore. As portas das casas dão vida às construções cor de barro avermelhado. As mesquitas atraem olhares curiosos tanto pela magnificência das construções quanto pelo canto afinado e bonito que ecoa por toda Medina, é o som do alcorão. Hora de rezar, todos se preparam e se direcionam a Meca, fazem suas reverências, rezam e depois voltam ao trabalho. A relação com os turistas não podia ser melhor, é claro que arrancamos olhares de todos se andarmos pelas ruas com roupas muito curtas e decotes exuberantes, mas, ao contrário do que eu imaginei, não precisamos esconder nosso corpo e nossos cabelos. Até mesmo as marroquinas os mostram, não todas, mas as mais modernas circulam pela cidade com o cabelo mais brilhante e a maquiagem mais carregada. Quanto às roupas, parece que elas gostam das típicas mesmo, poucas eram as calças jeans a caminhar pela cidade. O que elas gostam mesmo é das cores, texturas e bordados e dos inúmeros modelos de túnicas, vestidos, batas que há a venda em cada centímetro quadrado do lugar. Até o turista se rende a beleza e aos detalhes daqueles trajes, um dia eu saí até com hijab na cabeça!
A música é outro ponto positivo do lugar, não há como não sentir vontade de dançar como a Jade quando tocam músicas que fizeram parte da trilha sonora da novela. Há ainda os músicos de rua, que tocam instrumentos bastante diferentes do que estamos habituados a ver e nos tocam profundamente com o som que produzem. CDs de artistas locais podem ser encontrados facilmente em qualquer lugar, e dá logo uma vontade de saber falar francês só pra acompanhar o Cheb Khaled com o seu sucesso Aisha.
E o que dizer do povo? Ah, o povo! Simpatia igual só mesmo no meu querido Brasil, educação e classe não transforma ninguém em agradável. Só mesmo sendo um povo pobre, beirando o miserável, sofrido e trabalhador para dar valor à vida e fazer dela a sua felicidade. No final de tudo, eu já estava tão à vontade que nem queria voltar, uma semana foi pouco para desfrutar dos encantos de Marrakech. Vou embora, mas já planejando um dia voltar.

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