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Ilusão

Posted by Larissa Araújo on 19:35
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Ela tremia e suava frio, andava sem rumo pela longa avenida. Já passava das 22h, as lojas já estavam fechadas, poucos carros circulavam, as calçadas começavam pouco a pouco a encher, eram os habitantes da noite chegando para mais uma batalha. A chuva ameaçava cair, as luzes fracas dos postes iluminavam a entrada do beco em que ela se escondia todos os dias. Carregando consigo a mochila encardida, Giovanna seguiu em busca dos seus demônios diários, retirou do bolso uma nota amassada, não sabia ao certo quanto tinha ali - estava desorientada - mas sabia que era sua última nota. No alto da ladeira avistou um homem de agasalho escuro e chapéu, aproximou-se e estendeu a mão com a nota derradeira, não o encarou um momento sequer, ele retirou do bolso do casaco um saquinho com um conteúdo branco e pegou a nota. Após a troca Giovanna desceu a ladeira e correu para o seu beco, com as mãos ainda trêmulas e a respiração cada vez mais ofegante abriu o saquinho e despejou seu conteúdo em um pequeno recipiente de vidro, separou uma pequena quantidade em uma folha de papel. Com um canudo cortado tentou aspirar aquele pó mágico, mas seu nariz já muito ferido, protestava enviando-lhe a dor. Ela já havia feito aquilo tantas vezes que suas narinas não mais suportavam, por conta das feridas no nariz decidiu usar outro método, talvez mais doloroso e complicado, mas ela era uma garota forte que sobrevivera a tantas coisas no passado, não seria isso que a faria cair. Retirou da mochila uma seringa e um cordão, preparou o pó mágico e então respirou fundo, contou até três e...
Não conseguiu. Morria de medo de agulhas, quase desmaiou. Ela estava ficando cada vez mais nervosa, precisava arrumar um jeito de injetar aquele líquido milagroso nas suas veias, necessitava daquilo para se sentir bem e com disposição. Passava mal se não usasse, sentia calafrios, tremores, inquietação. Era agressiva com todos, tinha visões estranhas que a perseguiam sempre, roia tanto as unhas que seus dedos ficavam feridos; depressão. Eram os sintomas da sua abstinência, todos os seus problemas seriam resolvidos quando conseguisse empurrar aquela agulha contra sua pele. Ela sentia raiva de si mesma, chorava copiosamente, sentia-se covarde e tentava arrancar os próprios cabelos. Estava impaciente, em mais uma tentativa de aspirar o pó mágico conseguiu machucar ainda mais o nariz que agora sangrava, mas havia conseguido, já podia sentir-se um pouco melhor, sorria enquanto o sangue escorria para o canto da sua boca, um misto de lágrimas, sangue e satisfação.
Mas o que fazer com o pó já misturado? Fechou os olhos e injetou com toda a força que conseguiu reunir, o liquido foi penetrando sua pele aos poucos e percorrendo suas veias. Suspirou aliviada, deu tudo certo, agora poderia aproveitar o seu momento de libertação. Sentia-se tão bem, suava excessivamente, mas enfim estava bem, a euforia ia tomando conta de seu corpo aos poucos, agora sim ela era quem sempre quis ser, segura de si, extrovertida. Abriu a mochila e pegou uma garrafa de vodka já no fim, bebeu como se fosse água, levantou e saiu correndo. Corria para lugar nenhum, corria para todos os lugares, era livre, era feliz, era bonita. Era tudo e podia tudo, naquele momento era dona da sua felicidade, mas por quanto tempo?




Ao som de Bliss - Tori Amos

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